Quando durante séculos, os habitantes de um país não presenciam a sua língua nas bocas e nas mãos do poder, podemos concluir que nem existe país, nem língua. No seu lugar, uma rede vai-se desenhando por volta do próprio falar, aprisionando-o e marcando-lhe limites. No idioma da Galiza esta linha incontornável tem-se manifestado de três formas fundamentais e para cada uma delas o Sentido Comum (SC) tem elaborado máximas paralisadoras, aprimoradas geração após geração:.-Un artigo de Valentim Fagim
Limite 1: Há espaços sociais que a nossa língua não pode ocupar. Em 1870 era a poesia não folclórica, em 1951 as colunas dos jornais, hoje a TV por cabo. A formulação do SC (Sentido Comum) é "o galego serve para o que serve" às vezes seguida de "E na verdade não serve para muito".
Limite 2: Há palavras que não se podem dizer e sobretudo escrever. Em 1904 "Aos" e "Libertade" (sic) eram PORTUGUÊS. Em 1971 o ILG afirmava que "Xornal" "Só" e "Estrada" eram, já não português, mas LUSISMOS. Hoje, escrever como estou a escrever não é NORMATIVO. A formulação do SC é "o galego é como é e há que deixá-lo como está".
Limite 3. Há uma fronteira estatal que não se pode ultrapassar. Portanto, aceita-se o galego das Astúrias, ou de Leão e até de Cáceres mas não o de Portugal, o Brasil, Angola ou Timor. A formulação do SC frisa que "O galego e de Galicia (sic)" portanto de Espanha.
Estes três limites formam uma Trindade que como a sua versão Santa são UNA e Trina porque afinal fazem parte do mesmo processo de substituição linguística. E, no entanto, as políticas linguísticas elaboradas desde 1983 tenhem-se alicerçado numa fantasia que sendo tão repetida acabou por fazer parte do SC do nacionalismo galego: é possível quebrar o Limite 1 sem quebrar o 2 e o 3. A sua formulação popular mais popularizada é "Primeiro normalizar e depois normativizar".
Tendo em conta que os galegos e as galegas fomos e somos educadas maciçamente para virar utentes de espanhol, esta fantasia tem-se tornado reforço precioso deste processo. O mecanismo repete-se todos os dias, a cada instante: quando os falantes de "galego" batem com uma limitação, por exemplo um espaço inexistente (revistas, filmes, internet) ou formas de denominar a realidade (união de facto, surto de gripe, Bento XVI), esta carência é preenchida mecanicamente em espanhol. "Sempre" foi assim e rotular o português de ESTRANGEIRO só tem vindo a afiançar o processo, fechando assim a porta a qualquer modificação do Sentido Comum.
Sendo eu miúdo, havia no zoológico de Vigo uma gaiola com dous lobos. Confio que ambos tenham desaparecido de ali, a gaiola e o zoológico. Por ser o cárcere de dimensões reduzidas, os animais, quando acordados, passavam o dia todo a gizar círculos de maneira compulsiva. Comentava-se até, embora poda ser uma lenda urbana, que dado dia os lobos foram transladados para um habitáculo maior mas era tanta a força do costume que só utilizavam uma extensão mínima do novo espaço. O resto, para além dessa linha imaginária, simplesmente não existia. Ainda bem que não somos lobos.


Planta de Gas de Reganosa ameaza Ría de Ferrol. Comité Cidadán de Emerxencia 












